A Medicina

O cérebro reorganizado: tecnologias que salvam vidas

Do universo de ficção científica à indústria de jogos e entretenimento, a realidade virtual é uma das grandes tendências do mercado tecnológico. E ela aparece cada vez mais próxima também da Medicina. Imagine a cena: o paciente coloca os óculos característicos e adiciona alguns eletrodos na cabeça. Ao lado, um computador. Quando percebe, está interagindo com o vídeo que aparece diante de seus olhos. Essa é uma das formas de tratamento da chamada neuromodulação. 

Pouco conhecida, a técnica consiste na transmissão de corrente elétrica de baixa frequência, com atuação direta na área neural. O objetivo é inibir ou estimular os neurotransmissores responsáveis por alguma função ou comportamento. No Brasil, ainda é pequeno o número de profissionais especializados no método inovador e nenhum hospital oferece a neuromodulação - a não ser a título de pesquisa. 


Em um futuro próximo, no entanto, a tendência é que a técnica possa fazer parte do rol de opções para tratamento de muitas doenças clínicas. Conforme explica o neurologista Pedro Schestatsky, também professor de pós-graduação em Ciências Médicas e Psiquiatria na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs),  a dor crônica não tem nenhuma utilidade para o paciente. “Na neuromodulação, buscamos apresentar ao cérebro um caminho de adaptação a essa dor”, explica. 

Para Schestatsky, se já é comprovado a possibilidade da reorganização do cérebro sem grandes sofrimentos, a Medicina precisa utilizar desta tecnologia. “Não queremos que os nossos pacientes sejam dependentes da neuromodulação. Nós queremos novos pacientes, para que se sintam inspirados a voar por eles mesmos”, complementa o médico, que tem atuado em conjunto com a doutoranda em neuromodulação Lauren Adachi, na busca por resultados cada vez mais eficientes. 

Contra a depressão

Com depressão desde criança, mas não diagnosticada, Ana Louzada tentou vários métodos para sair das amarras impostas pela doença. “A pessoa com depressão não tem controle da tristeza. Como convivo há anos com a doença, já sei quando vou entrar em crise. Tenho consciência da minha situação, só não consigo reagir”, explica.

Depois de adulta e já diagnosticada (hoje, tem 55 anos), Ana passou a usar medicamentos, mas nenhum fármaco tinha longa duração no tratamento - e ela não queria se tornar refém de comprimidos. Foi então que conheceu a neuromodulação. Com placas na região encefálica, ela se sentava em uma cadeira, colocava os óculos de realidade virtual e via paisagens bonitas, ao mesmo tempo que interagia com a imagem. “Algumas vezes, até optei por ouvir músicas ao mesmo tempo que recebia a estimulação no cérebro, como se fossem umas beliscadinhas na cabeça. Tudo ao mesmo tempo”, conta a paciente.


Schestatsky ressalta a importância da sensação estimulada no cérebro que, nesse caso, ocorre a partir da eletricidade associada às imagens. O conjunto permite que o coração bata mais rápido, a pupila aumente e a peristalse fique alterada. “Com essa emoção, a gente pega carona com a eletricidade e tenta fazer com que o cérebro tome um outro caminho adaptativo”, conclui.

Bastaram dez sessões - uma de 20 a 30 minutos por dia, durante dez dias -  para que Ana não precisasse mais de medicamentos. Hoje, ela não enxerga a tristeza de perto há um ano e meio e se sente agradecida em participar da pesquisa e ter colhido resultados positivos para, talvez, uma vida inteira.      

Recuperando movimentos

Imagine que você esteja se sentindo bem, apenas um tanto cansado. Resolve dormir e logo depois de acordar se dá conta que não consegue mexer o lado esquerdo do corpo. Foi o que aconteceu com o educador físico Matheus Hesse Alvares, 37 anos, em fevereiro de 2015. Ele passava o Carnaval na praia da Ferrugem, em Santa Catarina, quando teve um Acidente Vascular Cerebral (AVC). “Em um primeiro momento, pensei que tivesse dormindo em cima do braço. Comecei a verificar e percebi que minha perna esquerda também não mexia”, relembra.

Depois de alguns minutos, Hesse foi levado para o posto de saúde mais próximo, na região de Imbituba. Após os primeiros testes, o AVC foi detectado. Como não havia aparelhos para realizar exames mais específicos na unidade e o hospital de Florianópolis estava superlotado por conta do feriado, o educador físico foi orientado a retornar imediatamente para Porto Alegre.  

De volta à Capital gaúcha, foi diagnosticado o quadro de AVC isquêmico, causado pelo estrangulamento da carótida. Hassen precisou ficar internado durante duas semanas no Hospital Conceição. Logo após receber alta, um de seus alunos comentou sobre o caso com Schestatsky, que se prontificou em atendê-lo.  “Fiz avaliação e logo comecei o tratamento de neuromodulação. No meu caso, a técnica foi utilizada para que o cérebro ficasse mais receptivo a novos movimentos. Um trabalho realizado com equipe multidisciplinar, através de muitas horas de fisioterapia também”, relata Hesse.

Foram seis meses de tratamento com neuromodulação, em sessões que duravam cerca de uma hora, todos os dias. No início, o paciente sentia uma corrente elétrica suave e uma espécie de coceira na cabeça, do lado afetado, bem onde estavam os eletrodos. Sentado, o braço direito era preso e o esquerdo ficava em uma mesa, para estimular o movimento. Na época, o óculos de realidade virtual não era opção, mas agora já foi incorporado também para aqueles que sofreram acidente vascular cerebral. 

Segundo Schestatsky, o tempo de recuperação do educador físico foi surpreendente pela gravidade do caso. “Eu tenho certeza que, em 20 anos de neurologia, eu nunca vi alguém se recuperar desta forma. Foram 60 sessões. Isso que naquela época a técnica ainda não era tão desenvolvida”, afirma o neurologista.

Hoje, muito por causa da neuromodulação, Hesse se considera com 95% da condição física e está de volta ao mercado de trabalho. “Foi uma evolução lenta, mas perceptível. Cada milímetro que eu conseguia mover era uma grande vitória. Sem dúvidas, o tratamento teve grande importância para que eu saísse daquela situação”, salienta.

Desempenho em foco

O portoalegrense Maurício da Silva Nascimento, de 30 anos, é educador físico e atualmente técnico de natação no clube Grêmio Náutico União (GNU). Tendo o esporte em sua vida desde muito cedo, logo aos 12 anos começou a se destacar nas piscinas e, por consequência, a participar de campeonatos. No ano passado, competiu o Sul Americano, no Uruguai, conquistando o primeiro lugar nas três provas de nado peito ( 50,100 e 200 metros).  “Hoje, até pela idade, participo de competições na categoria masters. Consegui alcançar o recorde estadual no ano anterior e estou dentro do ranking dos dez melhores nadadores do Brasil na categoria”, conta o atleta.

Em outubro do ano passado, o nadador conheceu a neuromodulação por intermédio de Schestatsky, que na época era seu aluno. Nascimento foi até a clínica do neurologista para fazer uma experiência, mas ainda resistente com a ideia de usar o aparelho. “Logo quando comecei com os estímulos, sentia uma sensação estranha, como se estivesse coçando a cabeça, gerando até um pouco de desconforto. Mas depois de duas sessões acostumei”, relata.

Nascimento utilizou a técnica durante dois meses, todos os dias, exatamente 20 minutos antes dos treinamentos. Após semanas de uso, já podia sentir o desempenho melhorando a partir do tempo cronometrado a cada treino. “Eu consegui diminuir 50 centésimos utilizando o aparelho. Iniciava os treinamentos mais confiante e demorava menos para sentir a pegada da água. Isso faz muita diferença”, afirma. O nadador também destaca que, nos tiros de 25 metros, o tempo reduziu de 14,5 para 13,7 segundos.

Para os atletas, o aparelho consiste em uma espécie de fone de ouvido, conectado a um aplicativo do celular, com a potência regulada por bluetooth. Uma das limitações para que o recurso se torne mais comum é o alto custo dos equipamentos que precisam ser utilizados. Mas a tecnologia promete estar cada vez mais presente - e com melhores resultados.

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