A nossa função é, com poucos recursos, fazer o melhor possível. Só que chegamos a um ponto absurdo. Não há como gerir esta situação caótica. Como médico, é realmente triste falar diretamente com uma pessoa, ouvir o desespero do outro lado da linha, a tentativa de salvar um familiar, e não ter como resolver. É um fracasso, parece que não estamos cumprindo nosso papel por todo um sistema ineficiente que se estabeleceu”.Este é o relato de um médico regulador do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU) do Rio Grande do Sul, que falou ao Sindicato Médico do RS (SIMERS) e optou por não ser identificado. A essência do trabalho dos médicos reguladores é prestar o primeiro atendimento por telefone e encaminhar, conforme a necessidade, uma ambulância munida de médico e equipe para dar continuidade ao salvamento da vítima. A realidade é que com um sistema precário, muitas vezes sem veículos ou profissionais suficientes e sem leitos nas instituições de referência, o médico regulador se vê em um beco sem saída. A solução é orientar as pessoas a prestar socorro e procurar ajuda na unidade de saúde mais próxima, mas isto não torna a tarefa mais fácil. Pelo contrário, coloca o profissional numa situação de frustração absoluta por ser incapaz de fornecer à vítima o serviço na sua totalidade. Para ele, os piores atendimentos são estes, quando não há recursos para enviar para a vítima, casos que têm ocorrido com frequência. “Nós decidimos, por telefone, pela vida de outra pessoa o tempo inteiro. Tomamos condutas que definem a vida de alguém e fazemos isso levando em conta os recursos escassos. A maioria dos municípios têm apenas uma ambulância. Se eu mandar uma ambulância para um caso não tão grave neste local, estou arriscando perder alguém que logo, daqui cinco minutos, vai realmente precisar do serviço”, pondera. O médico se emociona ao lembrar dos inúmeros casos que ele e os colegas têm atendido nos últimos tempos e que denotam a falta de estrutura na saúde pública de todo o estado. De um lado, as cidades do interior com poucos hospitais como referência. De outro, a superlotação nos leitos da capital que desafiam os reguladores: para onde mandar mais um caso grave atendido pelo SAMU? “A saúde na Grande Porto Alegre e no interior tem piorado muito. Vamos exemplificar: imagine uma cidade pequena sem condições de atender um caso grave, como um infarto, por exemplo. Essa localidade tem como referência uma instituição de maior complexidade, mas a verdade é que estes locais estão lotados. Se chega um infarto em um município pequeno, o médico que o recebe não consegue enviar para a referência e quando ele não consegue encaminhar para lugar algum, ele liga para nós do SAMU. Ou seja, ele usa um recurso que existe, o chamado vaga zero, nos liga e explica a situação. Isso era algo que até dois anos atrás acontecia esporadicamente. Num plantão de 12 horas, tinha um pedido de vaga zero ou até mesmo nenhum. Hoje, um médico regulador, durante um plantão de 12 horas, recebe quatro ou mais pedidos de vaga zero, então temos que pegar este paciente e encaminhar para um hospital que já não tem vagas. Vamos ligar para um colega e dizer que estamos enviando um paciente em situação delicada, mesmo que ele não tenha espaço e equipamentos para receber esta pessoa”, conta. Sucateamento e falta de ambulâncias
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