A Medicina

Antes e depois de a bola rolar: O dia a dia de médicos em clubes de futebol

30/03/2016 15:52

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                  Os médicos trabalham antes, durante e depois das partidas. Fotos: Arquivo pessoal
O futebol, além de ser o esporte mais popular do mundo, é um dos que envolve mais contato físico entre os atletas. Durante as partidas, os ânimos se exaltam dentro das quatro linhas e faltas duras acabam acontecendo em diversos momentos do jogo. Por conta disso, antes dos jogadores pisarem no gramado e após o apito final do árbitro, os médicos e outros profissionais do Departamento Médico do clube estão sempre trabalhando na condição clínica dos atletas. Trata-se de uma rotina que envolve pressão externa da torcida e da imprensa, muitas viagens e, principalmente, estar sempre buscando mais conhecimento. Muitas vezes o gosto por esporte, exclusivamente pelo futebol, faz com que futuros médicos busquem especialização de medicina esportiva, ortopedia, fisiologia ou traumatologia, sonhando com a oportunidade de trabalhar em um grande clube do Brasil. “Desde muito jovem sempre gostei de praticar futebol e outros esportes, então fui buscar essa parte de ortopedia na medicina esportiva e gostei muito. Acabei juntando a medicina com o futebol, duas coisas que adoro”, conta o Presidente da Sociedade Gaúcha de Medicina do Esporte e médico do Grêmio, Márcio Dornelles.  Há 13 anos no clube, Dornelles lembra que começou como estagiário antes de ser efetivado. “Primeiro fiz estágio no Grêmio, depois de um ano voltei ao clube e fui contratado. Fiquei um ano nas categorias de base, em seguida atuei como coordenador médico dessas categorias e hoje atendo o grupo principal”.
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       Em viagem,  Márcio Dornelles acompanha o jogador Luan . Foto: Arquivo pessoal
Com dez anos de trabalho no Internacional, a escolha do médico Mateus Falcão, de unir a medicina ao esporte, começou quando ele estava terminando a residência em ortopedia. “O ortopedista está inserido no esporte naturalmente. Para mim, que sou especialista em cirurgia de joelho, trabalho bastante com lesões ocorridas pela prática esportiva. Então, no final da minha residência, surgiu uma vaga no Internacional”. A carreira dentro do Colorado começou nas categorias de base até o momento em que o Inter selecionou Falcão para acompanhar o elenco profissional. “Os clubes sempre olham para a base, pois procuram profissionais de confiança, com competência e que já estão acostumados com o cenário do futebol. Permaneci por seis anos nas categorias de base até me chamarem para o grupo principal, onde estou há quatro anos”, relata Falcão. Alguns médicos conciliam o clube com o atendimento em clínicas particulares ou até em hospitais. Embora tudo seja medicina, o universo do futebol impõe uma abordagem diferenciada aos pacientes e no controle do tempo. “Na medicina de maneira geral, temos grandes responsabilidades, mas no campo trabalhamos com atletas que valem milhões e isso aumenta a nossa pressão, assim como o prazo curto de tratamento. Estamos sempre em contato com a fisioterapia e pressionados pelo tempo”, diz o médico do tricolor. Já Falcão, afirma que o médico precisa se abstrair dos deslumbres e ter “sangue frio” para trabalhar com jogadores que custaram valores altos ao clube.
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           Mateus Falcão prestando atendimento durante a partida. Foto: Arquivo pessoal
Mas, apesar do atendimento diferenciado, da rotina de treinos e das inúmeras viagens com a delegação quando o time joga em outra cidade, a principal diferença entre os trabalhos acaba sendo a lida com a imprensa no dia a dia. Até porque essa pressão depende do momento em que o time está passando. “A pressão externa é um diferencial importante, pois o nosso trabalho está sempre sendo investigado. Quando o clube está bem, a relação com a imprensa fica mais fácil, porém, na situação inversa, tudo é mais complicado. Por isso que preservamos os atletas e sempre conversamos com a assessoria de imprensa antes de qualquer entrevista”, salienta o ortopedista do Inter. O médico do Grêmio também destaca a tensão, porém é enfático em dizer que estar pressionado faz parte em qualquer área da medicina e que todos precisam se acostumar. “Claro que também ficamos pressionados pela imprensa e pela torcida, ainda mais quando um jogador destaque fica lesionado, mas temos que aprender a lidar com isso e preservar o atleta. Pressão existe em qualquer lugar onde se exerce a medicina, portanto o médico que tiver medo tem que trocar de profissão”, afirma. Para aqueles que trabalham em alguns clubes de menor expressão, com menos estrutura, a rotina acaba sendo bem diferente. Geralmente, esses clubes não têm médicos próprios, então, os profissionais acabam sendo voluntários como, por exemplo, no São Paulo de Rio Grande, que hoje disputa apenas campeonatos regionais. “Concilio o clube com uma clínica de traumatologia. Não recebo remuneração do clube. Por isso, eu e meu sócio fazemos um trabalho voluntário para o São Paulo. Normalmente fazemos procedimentos de radiografia e atendimento de reabilitação na clínica”, explica o médico traumatologista Alexandre Faria.  O sistema de viagens também é diferente, pois não é comum os médicos irem com a delegação. “Não costumamos acompanhar nas viagens, só quando tem exame antidoping, mas geralmente vai o fisioterapeuta e o preparador físico”, revela Faria. O traumatologista que sempre gostou de esporte, e decidiu ajudar o time do município de Rio Grande, ressalta que para fazer parte do Departamento Médico de um clube, é preciso gostar bastante de esporte e do ambiente do futebol. “Primeiramente, gostar do esporte é essencial, depois é necessário ter noção dos principais traumatismos que o atleta pode sofrer e gostar de toda a atmosfera que envolve o futebol”, salienta. Dornelles também enxerga que a atualização é essencial para o profissional evoluir cada vez mais dentro da medicina esportiva. “Você precisa sentir prazer no que faz. Ter o conhecimento pleno de tudo que envolve a medicina do esporte e estar em constante atualização, buscando mais conhecimento, porque a medicina esportiva e as demais áreas da profissão exigem isso”, afirma. Falcão alerta para os bons relacionamentos, pois essa é uma área da profissão que não tem concurso público. “O essencial é ter foco na área esportiva e procurar se destacar de alguma forma, porque é só assim que as portas abrem. Como não há concurso pra área, ss boas relações profissionais se tornam muito importante”, garante.
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