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A Luta

Doação de órgãos: uma oportunidade de recomeço

27/09/2016 15:04

Passar por um transplante costuma ser uma experiência difícil e angustiante, imagina quando ela precisa ser vivida duas vezes. Essa é a história de Luis Antônio de Freitas. Hoje com 48 anos e aposentado, ele sofre há 25 com os efeitos de uma diabetes severa do tipo 1. É desde 2010, no entanto, que a situação começou a piorar e que a hemodiálise se transformou em uma necessidade. As sessões fizeram parte da sua rotina durante dois anos e meio, até que o seu estado de saúde exigiu que entrasse na fila para realizar um transplante duplo, em que o rim e o pâncreas são transplantados de uma única vez. Como Porto Alegre não oferece essa opção, o processo seria realizado em São Paulo. Foi chamado a primeira e a segunda vez para a cirurgia, mas não deu certo. Na terceira, em um domingo, não havia voo que o levasse para a capital paulista em tempo hábil. Hoje, ele relembra sua história, cheia de idas e vindas.
Muitos encontram no transplante uma oportunidade de recomeçar a vida. Foto: CC BY-NC-SA 2.0
Muitos encontram no transplante uma oportunidade de recomeçar a vida. Foto: CC BY-NC-SA 2.0

Para entender o processo

Depois da terceira negativa na possibilidade de realizar a cirurgia, o quadro de insuficiência renal do aposentado piorou intensamente e o transplante duplo deixou de ser uma alternativa. Ainda assim, precisava receber – e logo - um novo rim. Na busca, descobriu que sua esposa na época podia ser a doadora que tanto precisava. O transplante foi feito ainda em dezembro de 2012 e mudou a rotina de Freitas. A hemodiálise de segunda a sábado ficou para trás, a disposição melhorou e a alimentação voltou ao normal, sem todas as limitações de antes. “Em 15 dias, eu já estava caminhando pelo Bom Fim novamente”, conta em meio a uma risada. Já recuperado, ele voltou à ativa na lista de receptores de pâncreas e, em abril de 2013, viu-se novamente em uma sala de cirurgia para realizar o segundo transplante. Diferente da primeira experiência, a recuperação foi lenta e o pós-operatório complicado. Ainda assim, a experiência valeu a pena pelo tempo em que pode deixar de lado a insulina e todas as complicações da diabetes. O caso de Luis mostra as duas possibilidades que a doação de órgãos oferece, ambas previstas na Lei 9.437, de 4 de fevereiro de 1997: aquela feita em vida e a que ocorre quando existe o diagnóstico de morte cerebral (ME). A primeira situação pode acontecer entre cônjuges, parentes consanguíneos de até quarto grau ou qualquer outra pessoa, desde que mediante autorização judicial. Além disso, esse tipo de doação só é permitida para os chamados órgãos duplos (a exemplo dos rins) ou partes de um órgão (como do fígado), desde que o procedimento não prejudique o organismo de quem doou. O segundo caso, relacionado à morte cerebral, costuma ser ainda mais complexo e envolve um momento de extrema dificuldade para a família do doador, que acaba de perder um ente querido. Conforme explica o nefrologista Maurício Schuck, coordenador da Organização de Procura de Órgãos da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), o primeiro passo é a notificação, por parte da equipe médica da UTI em que o paciente está internado, da gravidade do quadro neurológico. “Quando o paciente apresentar os critérios de ME estabelecidos na legislação vigente, dá-se início ao diagnóstico. Esse diagnóstico contempla dois testes clínicos que devem ser feitos por dois médicos distintos – um deles obrigatoriamente por um neurologista ou neurocirurgião – e mais a realização de um exame complementar, com intervalos de tempos definidos conforme faixa etária”, detalha Schuck. Se os resultados forem positivos, é declarado o óbito do paciente e os familiares são comunicados. Nesse momento, toda a atenção é válida para explicar os detalhes e não deixar que qualquer dúvida passe sem resposta. É só depois de todo esse processo que existe a entrevista sobre a possibilidade da doação de órgãos, sempre realizada por pessoas que tenham treinamento específico. É o caso de membros da Comissão Intra-hospitalar de Doação de Órgãos e Tecidos para Transplante (CIHDOTT) ou das Organizações de Procura de Órgãos (OPO’s). O médico também cumpre papel decisivo nesse momento. Cabe a ele acolher a família e estar disponível para explicar o conceito de morte cerebral e o que ele representa. “Com a família bem ciente do processo, terá mais tranquilidade para tomar a decisão”, salienta o nefrologista. Ou seja, não se trata de tentar convencer os familiares a todo o custo, mas sim de oferecer a doação como uma possibilidade. Independente da decisão, a acolhida deve ser feita.

A lista de espera

No Brasil, os pacientes que estão em busca de um transplante são organizados a partir de uma lista. “Cada vez que surge um doador, a Central de Transplantes é informada e processa a seleção dos possíveis receptores para os vários órgãos”, explica o coordenador da Organização de Procura de Órgãos da PUCRS. Ao mesmo tempo, existe o mapeamento dos locais em que cada um deles é atendido. A definição de quem são os possíveis receptores considera inúmeros fatores, como o tipo sanguíneo, a compatibilidade imunológica, tempo na lista de espera, gravidade do paciente, peso e altura. Freitas sabe bem como todo o processo funciona e estuda a possibilidade de voltar a fazer parte da lista. O motivo? Em novembro de 2013, precisou ser internado por conta de um quadro de tuberculose. Nesse meio tempo, sofreu uma infecção hospitalar que agravou seu estado de saúde, o deixou em coma por cinco dias e levou à perda das funções do pâncreas transplantado. Novamente, os problemas relacionados à diabetes voltaram e hoje o controle da doença é feito com bomba de insulina.

Por que ocorre a rejeição para doar

Mas apesar de toda a importância da doação de órgãos, ainda existe uma barreira frequente a ser superada: a falta de autorização familiar. De acordo com Shuck, no primeiro semestre de 2016 a taxa de rejeição foi de 44% no Brasil e de 41% no Rio Grande do Sul. Os motivos relatados pelas famílias são inúmeros. Falta de entendimento sobre o conceito de morte encefálica Em termos de definição, a maioria das pessoas entende a morte como o momento em que o coração para de bater e as funções vitais deixam de ser realizadas pelo organismo. Quando ocorre a morte encefálica, no entanto, os batimentos cardíacos seguem acontecendo, o que pode gerar confusão nos familiares e dificultar que a doação seja autorizada. “Por isso, é muito importante a capacitação dos profissionais para comunicação de más notícias, o que é essencial à prática diária e, deve sempre ser aprimorado. Também é fundamental que, cada vez mais, se aborde o tema, se esclareça o que é o diagnóstico de morte encefálica”, destaca ainda o nefrologista. Desconhecimento sobre o desejo de doar Como apenas a família pode autorizar que a doação de órgãos seja feita, é fundamental que qualquer pessoa que deseje ser doadora comunique essa vontade aos familiares e reforce a importância desse ato. Do contrário, essa vontade pode não ser respeitada. Motivos religiosos ou crenças culturais O médico explica que nenhuma religião se manifesta diretamente contra a doação, mas que algumas crenças costumam interferir na decisão final. Um dos motivos é o entendimento que existe uma violação do corpo e que aquela morte pode não significar o fim.

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