A Vida

Longas jornadas, atualização constante e muito orgulho marcam a docência médica

06/01/2016 12:54

preceptoria-medica-shutterstock Longas jornadas e uma grande responsabilidade marcam a rotina dos médicos que decidem conciliar hospitais e consultórios com a vida acadêmica. Ainda assim, as raras vagas que abrem para professor na Faculdade de Medicina da Ufrgs são bastante disputadas, e há quem fique anos de olho na oportunidade. Foi o caso do cirurgião Carlos Corso, 59 anos, e do otorrinolaringologista Otávio Piltcher, 46, que com apenas cinco anos de docência nas respectivas áreas figuraram como paraninfo e professor homenageado na última formatura da universidade, e descrevem emocionados o orgulho de fazer parte da formação e ser lembrados por esses jovens médicos. Corso, na verdade, já leciona há 30 anos, tendo começado logo após concluir a residência em Anatomia, mas só recentemente conseguiu migrar para o ensino de sua segunda especialidade, a Cirurgia. Isso possibilitou a realização de um sonho e um contato muito próximo com a última turma de alunos, que teve aulas com o professor diversas vezes ao longo do curso, nas duas disciplinas. A convivência acarretou no primeiro convite para paraninfar uma turma. “Foi uma emoção muito grande, me orgulha muito. São alunos que passaram por mim no início e no fim do curso, passaram pela sala de aula e pela sala de cirurgia”, explica. “Foi uma turma muito especial, marcante pela continuidade.” Piltcher também sempre almejou a docência médica, guiado pelo exemplo do pai, o também otorrinolaringologista e professor universitário Simão Piltcher. E, em cinco anos ensinando Medicina, ele acaba de ser homenageado pela segunda vez. “Ele era um exemplo e a vida acadêmica era um sonho para mim, um objetivo. Desde que me formei, já encaminhei mestrado e doutorado, para estar preparado quando abrissem novas vagas”, revela, citando que o pai também já fora homenageado e paraninfo dos formandos. “É incrível fazer parte da formação e colaborar para que se tornem bons médicos.” No seu caso, a relação com os alunos há de ser mesmo especial, a ponto de ser lembrado apesar de um convívio breve. “Como otorrino, acabo dando aula para uma turma por quatro, cinco meses. Minha especialidade não costuma receber homenagens. Então chega a ser emocionante, pois tento extrapolar o ensino teórico e passar a importância da relação médico-paciente, a dedicação, o respeito, a empatia”, explica. “São ensinamentos que os alunos reconhecem. É um orgulho quando fazemos uma consulta no Hospital de Clínicas e o paciente se sente tão acolhido que cumprimenta cada aluno presente, agradece e faz votos de que se tornem ótimos médicos. Tem que lembrar que é sempre um ser humano do outro lado, em busca de uma solução para seu problema, independentemente do local de atendimento. É preciso adequar a linguagem, se fazer entender e ser acessível”, aponta. Corso faz coro: “Me sinto muito feliz de fazer parte da formação desses profissionais, que conheço como alunos e depois reencontro na residência e como colegas. Trabalhar com meus ex-alunos é um rejuvenescimento, físico e teórico.” E essa juventude extra há de cair bem para dar conta de uma rotina exaustiva. Entre Ufrgs/HC, Hospital de Pronto Socorro e Mãe de Deus, o cirurgião dedica mais de 12 horas diárias ao trabalho, inclusive com plantões e sobreavisos. “Não que a vida pessoal tenha sido renegada a segundo plano, mas foi preciso restringi-la. Pelo menos não tenho mais filho pequeno, minha filha já é adulta e fica mais fácil”, confessa o médico que, ao longo da carreira, também lecionou na UPF e UFCSPA. Em breve, ele deverá ganhar um tempinho extra, se aposentando no HPS. Isso, se não ocupar esse espaço com mais atividades científicas. “É uma carga pesada, mas vidas acadêmica e profissional se completam.” Piltcher também não tem dedicação exclusiva à universidade, embora participe de algumas pesquisas e dedique 40 horas semanais ao ensino. Equilibrar vida acadêmica, consultório e família é um desafio ao qual já está habituado. “Trabalho mais de 10 horas por dia, mas arranjo tempo para levar as filhas à escola, ajudar com o dever de casa ou até tirar férias junto”, explica o médico, que é pai de duas meninas, de 8 e 12 anos. “É preciso achar o equilíbrio, pois a academia traz um retorno muito grande ao médico, não em termos financeiros, mas nos mantém atualizados e isso reflete, inclusive, no atendimento a nossos pacientes.”
SEGUROS