A Medicina

Faltam médicos? Estudo comprova que a desigualdade na distribuição é o verdadeiro problema

04/04/2018 12:42

Entre 2010 e 2017, o número de médicos em atividade no Brasil cresceu 23,8%, quase três vezes mais do que a população como um todo – que se expandiu em 8,8%. Hoje, a categoria soma quase meio milhão de profissionais, o que poderia ser visto como uma conquista para um país que, historicamente, ressente-se de problemas crônicos na Saúde. Mas a verdade é que a distribuição é desigual. Enquanto algumas capitais contam com mais de 12 médicos para cada mil habitantes – superior à média dos países desenvolvidos – há regiões do interior do País que sequer conseguem cumprir o mínimo preconizado pela Organização Mundial da Saúde, que é de 1 médico para cada mil habitantes. Os números são da Demografia Médica 2018, pesquisa realizada pela Universidade de São Paulo (USP) em parceria com o Conselho Federal de Medicina (CFM), e evidenciam que a simples abertura de novas faculdades não é capaz de resolver os graves e persistentes problemas da saúde do País.

Aumento no número de faculdades

Quando a Demografia Médica foi realizada pela primeira vez, em 2010, pouco mais de 16 mil estudantes de Medicina deixavam a graduação para ingressar no mercado de trabalho a cada ano. Em 2016, esse fluxo já havia crescido para quase 19 mil por ano – e a tendência é de a expansão continue nos próximos anos. Em 2024, a previsão é de que mais de 24 mil novos médicos estejam ingressando no mercado a cada ano. O aumento é resultado direto da multiplicação, sem controle de qualidade, de faculdades. Hoje, já existem 289 escolas médicas no Brasil. Em 2009, eram 185. Ou seja, houve um aumento de 56,2% em apenas oito anos. Isso sem contar outros 16 cursos já autorizados, mas que não foram incluídos no estudo – porque não há previsão de quando começarão a funcionar.

Distribuição desigual

Apesar do aumento exponencial no número de médicos, permanecem problemas antigos, a exemplo da desigualdade na distribuição dos profissionais. Só o Sudeste congrega mais da metade dos profissionais que atuam no Brasil, com 2,81 médicos para cada mil habitantes. No Norte, a razão cai para 1,16. A diferença é ainda mais gritante na comparação entre capitais e municípios do interior. Com menos de um quarto da população do País (23,8%), elas concentram mais da metade (55,1%) dos profissionais. No Rio Grande do Sul, somente Porto Alegre detém 46,3% dos médicos de todo o Estado. Os dados reforçam aquilo que o Simers sempre denunciou: a solução para os problemas da saúde brasileira não se resume a formar mais médicos. É preciso garantir condições de trabalho e valorizar a categoria, como forma de estimular a migração dos profissionais para cidades mais afastadas dos grandes centros. A criação de uma carreira médica de Estado é uma das alternativas para promover essa mudança.

Números do Rio Grande do Sul

Números da Demografia Médica 2018
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