A Medicina

Direitos reprodutivos: consulta de Planejamento Familiar pode demorar 1 ano

25/02/2016 14:02

Mae-filho-colo-familia-FreeImages Enquanto autoridades recomendam às mulheres que adiem planos de gravidez, a realidade é que a maioria das grávidas vítimas do vírus zika, responsável pela epidemia de microcefalia no Brasil, não tem autonomia reprodutiva. Esta é a avaliação da jornalista e epidemiologista americana Seema Yasmin, que tem acompanhado emergências em saúde pelo mundo. “A história da crise do zika é uma história sobre a injustiça na reprodução das mulheres”, afirma. No Brasil, existe um enorme abismo social e áreas carentes são justamente as mais vulneráveis a infestações de insetos, como o mosquito Aedes aegypti, vetor do zika, além da dengue e da febre chinkungunya. Nessas comunidades, a educação sobre formas contraceptivas é escassa, a violência sexual, mascarada, e a maternidade, encarada como forma de ascensão social. E o Planejamento Familiar é uma das disciplinas com maior fila de espera na ginecologia.

Postos sem ginecologistas

Médico de Família e Comunidade na ESF Morro da Cruz, zona leste de Porto Alegre, Fernando da Mota já não se surpreende quando adolescentes buscam o serviço com seus filhos, gestantes ou mesmo tentando engravidar. “Para essas jovens sem perspectivas de prosseguir nos estudos ou obter um bom emprego, ser mãe é um novo status social. Quando elas estão num relacionamento, logo surge a pressão para serem mães”, revela. Único médico na ESF, cabe a ele ainda o papel de educar as pacientes, desde ensinar métodos contraceptivos, orientar sobre o pré-natal ou mesmo apontar que a gravidez não é a única opção para as mulheres. “Tento apontar que existem outras possibilidades. O trabalho da Medicina de Comunidade extrapola a saúde em si. É preciso orientar, inclusive, em relação a perspectivas de vida.” Esta realidade não é exclusiva do Morro da Cruz. Na capital, 92 postos, entre UBS e ESF, não têm ginecologistas. Apenas um terço deles concentram os 78 especialistas que atuam no atendimento primário. Ou seja, cabe aos médicos comunitários e clínicos a orientação sobre planejamento familiar. Isso porque, embora não haja filas para consultas ginecológicas de rotina, a coisa muda de figura quando falamos de subespecialidades. A de Planejamento Familiar tem espera de um ano e acumula 759 mulheres aguardando por consulta.

Abandono paterno

A falta de acesso a serviços de planejamento familiar torna inócua a recomendação das autoridades e risível a declaração do ministro da Saúde, Marcelo Castro, de que “sexo é para amadores e gravidez é para profissionais”. Reportagem do jornal O Estado de S.Paulo do início do mês de fevereiro aponta que muitas mães de bebês afetados pela microcefalia estão sendo abandonadas pelos companheiros após o diagnóstico. Segundo o relato, na maioria dos casos são mulheres jovens, com relacionamentos instáveis e que tiveram uma gravidez não planejada. E que agora encaram sozinhas a dura tarefa de criar bebês deficientes.
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