A Vida

Na luta para ser médica

05/03/2018 12:41

ELAS OUSARAM DEDICAR A VIDA À MEDICINA NUMA ÉPOCA EM QUE SÓ OS HOMENS CHEGAVAM AO ENSINO SUPERIOR. UMA TRANSGRESSÃO QUE SE FEZ REVOLUÇÃO: EM BREVE, HAVERÁ MAIS MÉDICAS DO QUE MÉDICOS NO BRASIL   POR DANIELA PIN E JULIANE SOSKA Simer_76 Elas desafiaram padrões e preconceitos de seu tempo. Ocuparam espaços, esforçaram-se muito mais para ter o mesmo reconhecimento. Elas lutaram: com resiliência, com coragem e com força – a mesma força que, tantas vezes, disseram que elas não tinham. Tudo isso em nome do objetivo que move todos os médicos: salvar vidas. A história das mulheres na Medicina é feita não só de episódios de superação, mas também de uma peculiaridade regional: no Brasil, as pioneiras tiveram alguma relação com o Rio Grande do Sul. A começar por Rita Lobato Velho Lopes, a primeira médica brasileira – formada em 1887, aos 21 anos, com a tese “Paralelo entre os métodos preconizados na operação cesariana”. Rita nasceu em São Pedro do Rio Grande, na então província do Rio Grande do Sul, e desde cedo nutriu o desejo de ser médica. Primeiro no Rio de Janeiro e depois na Bahia, ela passou pela faculdade de Medicina quando a prática da profissão por uma mulher ainda era vista como transgressão. Todos os dias, Rita ia às aulas levada pelo pai, que a aguardava até a hora da saída. Nas disciplinas de anatomia, que envolviam o contato direto com os corpos, a jovem era acompanhada por outra mulher – que precisava ser necessariamente casada. Sua chegada ao ensino superior exigiu até mesmo uma revisão na estrutura da universidade: até então, não havia espaço para o banheiro feminino. A primeira médica a se formar no Brasil foi também a segunda na América Latina, depois da chilena Eloísa Diaz Inzunza – que concluiu o curso um ano antes. Incansável, Rita foi também a primeira vereadora mulher eleita no Rio Grande do Sul, em 1935.

MAIS MULHERES MÉDICAS

As duas médicas brasileiras formadas depois de Rita eram também gaúchas. Mas, assim como a precursora, precisaram deixar o Estado para conquistar o diploma em Medicina – desta vez, em terras cariocas. Ermelinda Lopes Vasconcelos, formada em 1888, teve que convencer o pai de que podia ser médica. Graduou-se com distinção e contou com a presença do imperador Dom Pedro II em sua banca de defesa. Mesmo assim, passou a vida convivendo com questionamentos a sua capacidade. Em um artigo, o historiador da literatura brasileira Silvio Romero escreveu certa vez: “fique certa a doutora que os seus pés de Machona não pisarão jamais o meu lar”. O destino tratou de dar o troco: mais de 20 anos depois, Silvio precisou contar com os serviços da "Machona" para auxiliar sua mulher, que estava prestes a dar à luz. Já Antonieta César Dias foi para o Rio acompanhada do pai quando tinha apenas 15 anos. Diplomou-se em 1889, com a tese “Hemorragia Puerpal”, completando a tríade de gaúchas pioneiras na Medicina. Até hoje, porém, pouco se sabe sobre sua trajetória profissional.

A MEDICINA CHEGA AO ESTADO

O cenário começou a mudar com a abertura da Faculdade de Medicina de Porto Alegre, em 1898. Diferente de suas antecessoras, Alice Mäeffer foi diplomada em 1904 sem precisar sair do Rio Grande do Sul. Uma década depois, foi a vez de Noemy Valle Rocha conquistar o sonho de ser médica, também em Porto Alegre. Proibida pelo tio, seu tutor, de cursar Medicina, ela se casou aos 18 anos e ficou viúva dois anos mais tarde – mas foi quando surgiu a chance de ingressar na faculdade.
Decorridos estes seis anos, eu confesso, não sem esmorecimentos, que não os maldigo, pelo contrário, abençoo. Como me foram salutares! Não enfraqueceram, mas repousaram, por momentos, minha coragem, para então torná-la mais forte, induzindo-me a prosseguir a luta no caminho da ciência, e da ciência mais bela, a mais sublime – a medicina!

PIONEIRISMO FEMININO

Até 1879, as mulheres brasileiras eram proibidas de frequentar o ensino superior. Inconformada, Maria Augusta Generoso Estrela convenceu o pai de que devia se mudar para os Estados Unidos, onde poderia cursar Medicina. Foi assim que, em 1875, partiu para Nova York, onde prestaria exames na New York Medical College and Hospital for Women. Como não tinha a idade mínima exigida para ingressar na faculdade, que era de 18 anos, Maria Augusta teve o pedido negado. Mas não desistiu do sonho. Depois de sensibilizar a todos, conquistou o direito de participar dos exames e foi aprovada com distinção. No meio do caminho, mais um empecilho: a falência da empresa do pai e a impossibilidade de se manter no exterior. A solução veio de ninguém menos do que o imperador Dom Pedro II, que acompanhou a história da jovem e decretou que seus estudos e moradia no exterior fossem pagos por uma bolsa. Foi assim que Maria Augusta conseguiu terminar a graduação em 1879 – coincidência ou não, no mesmo ano em que um decreto permitiu que as mulheres acessassem o ensino superior no Brasil.

MEMÓRIA VIVA DA MEDICINA

No final da década de 1950, as turmas de Medicina da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) recebiam em torno de cem alunos. Em uma delas ingressaram, entre as dezenas de homens, apenas seis mulheres. Uma delas era Themis Reverbel da Silveira, hoje com 80 anos. Na época, ainda havia resistência à presença feminina nas universidades. Themis, por exemplo, passou por um trote destinado apenas às mulheres: “Quando passei no vestibular, me massacraram. Me fizeram servir café no Centro Acadêmico Sarmento Leite cantando ‘Medicina é papa fina, não é coisa de menina‘. Isso me deixou indignada”, recorda. Hoje, mais de 50 anos após a formatura, em 1964, Themis relembra sua trajetória, seu pioneirismo em algumas áreas e a evolução das mulheres como um todo – na Medicina e na sociedade. “Me dá uma grande alegria ver salas de aulas cheias de mulheres”.

ENTRE A MEDICINA E AS ARTES

Durante quase três anos, Themis se dividiu entre o curso de Medicina e de Filosofia – este, focado nas disciplinas de teatro. A certa altura, chegou a suspender o sonho de ser médica. “Nas aulas aqui no Brasil, até o terceiro ano, não tínhamos contato com o paciente. Fui para França estudar música da Idade Média e conheci um médico francês, que me convidou para conhecer um hospital no país. Foi lá que tive acesso ao meu primeiro paciente”, relembra. Fascinada com a experiência, Themis retornou ao Brasil e para as aulas da UFRGS. Mas o ambiente ainda era de preconceito com a mulher acadêmica. Com vida social badalada, a jovem estudante participava de concursos de beleza – o que alimentava o descrédito perante os estudantes homens. “Muitos duvidavam da sinceridade do meu propósito e se surpreenderam na minha formatura”.
O mercado de trabalho exige que a mulher seja apenas profissional e esqueça o resto. Sou a prova de que não precisamos abrir mão de nenhuma área das nossas vidas. Eu queria ser tudo: mulher, médica, mãe, esposa, professora e pesquisadora. E eu sou.

Themis Reverbel Silveira_Juliane Soska (11)MULHER, MÉDICA, MÃE, PESQUISADORA E DOCENTE

Apaixonada pela docência, Themis se tornou professora de graduação e pós-graduação em universidades gaúchas como a UFRGS e a Ulbra. E adentrou em uma área ainda mais dominada pelo sexo oposto: fez doutorado em Genética e Biologia Molecular, implantou o primeiro centro de transplante hepático especializado para crianças do Sul do país e, até hoje, atua intensamente na produção de pesquisas. Desde 2013, Themis é diretora médica do Hospital da Criança Santo Antônio. Mas é na vida particular que ela diz ter encontrado seu maior sucesso. “Foi através dos meus três filhos, Fernando, Pedro e Thomaz”, revela orgulhosa.  

EM BREVE, ELAS SERÃO A MAIORIA

Hoje, o cenário é outro – e, em pouco tempo, as mulheres devem ser maioria na profissão. É o que indica a Demografia Médica de 2015, estudo realizado pela Universidade de São Paulo (USP). Ainda que em 2014 os homens correspondessem a 57,5% da categoria médica no Brasil, os números mostram que existe uma tendência de inversão. Entre os médicos com 29 anos ou menos, as mulheres já são maioria e representam 56,2% dos profissionais que atuam no mercado. Entre 30 e 34 anos, são 49,9%. A mudança no cenário é crescente desde o ano de 2011. Além disso, em 2014, elas já correspondiam a 54,8% dos estudantes que entravam na Medicina. MariaRita_DivulgaçãoPara a vice-presidente do Simers, Maria Rita de Assis Brasil, a mudança vista hoje teve seu início ainda na década de 1970, com o movimento feminista e a afirmação da mulher no mercado de trabalho, que passa a ocupar espaços até então restritos ao universo masculino. “Minha mãe, por exemplo, nunca teve carteira de trabalho, era outra realidade. Ela era responsável por manter a estrutura da casa, o que era considerado o papel feminino”, relembra. No caso de Maria Rita, a realidade foi outra. “Eu passei anos da minha vida dormindo no hospital, somados todos os plantões. Lembro de um momento que a minha filha, quando pequena, perguntou se eu ia posar em casa naquele dia, por entender aquilo como algo eventual”, conta ela.
Temos, entre os estudantes de Medicina, jovens médicas com uma liderança muito grande. Gente que se afirma, tanto do ponto de vista estudantil quanto profissional.

PROJEÇÃO POLÍTICA

Além de trabalhar como médica na maior emergência do Estado, Maria Rita transita com desenvoltura em uma área ainda dominada pelos homens: a política. No início da década de 1980, ela integrou a diretoria da Associação Gaúcha de Médicos Residentes, o Conselho Estadual de Saúde e o Conselho Municipal de Saúde de Porto Alegre. Além disso, desde 1998, é vice-presidente do Simers. “Temos, entre os estudantes de Medicina, jovens médicas com uma liderança muito grande. Gente que se afirma, tanto do ponto de vista estudantil quanto profissional”, analisa.

MOVIDA A DESAFIOSLucia Campos Pellanda_Daniela Pin (9)

Felizmente, há cada vez mais mulheres mostrando que existe espaço para a igualdade nos espaços de poder. Uma delas é a cardiologista pediátrica Lucia Campos Pellanda. Reitora da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA) desde março de 2017, ela acredita que a instituição é um exemplo da mudança que está em curso. “A reitora anterior também era uma mulher. Nós precisamos lutar agora para que as mulheres consigam chegar cada vez mais nesses espaços”, explica. Para ela, a transformação também passa pela quebra de estereótipos da figura de liderança. “É comum que se perpetue a ideia de que, para assumir um cargo de chefia, é preciso abrir mão de outros aspectos da vida ou mesmo assumir características tidas como masculinas”, destaca.
SEGUROS